
É claro que a fama do Calvo do Campari vem para zoar a trama do Red Pill em nossa sociedade, mas nada contra o Thiago Schutz, um homem, heteronormativo, branco, empresário, que pode ou não ter questões com relacionamentos e mulheres em específico. Isso é uma questão subjetiva dele, não podemos olhar para um homem que nós não conhecemos em seu real.
Entretanto, seu pseudônimo, Calvo do Campari, trouxe à luz um assunto muito importante: A toxicidade mascarada do Red Pill.
Na cultura Red Pill, abordada pela teoria Matrix, contada no filme de 1999, uma escolha entre pílulas coloridas. A pílula Azul, ou Blue Pill, seria a manutenção da sua vida dentro da Matrix, presa a construções na sociedade normativa. E a pílula vermelha, o RedPill, que seria descobrir a verdade.
Até aí, o movimento é interessante quando realmente trazemos essa reflexão para “sair da caverna”, assim como Platão trazia em sua alegoria, é um movimento positivo, sobre comportamento, postura, auto afirmação, entre outros movimentos positivos sobre si mesmo, tanto para homens como para mulheres. Muitas pessoas precisam de pessoas para orientá-las, não transformando isso numa seita ou qualquer tipo de cunho religioso, porém, apoiando nessa premissa. O Red Pill estava transformando um “sair da caverna” para “entrar em outra caverna”.
Isso é bem complexo, mas muito parecido com o mesmo filme Matrix, no caso os posteriores, onde é compreensível que dentro de uma falsa realidade, pode existir outras. Red Pill, começou a trazer uma outra bolha, uma bolha dita como a correta, mas cheia de falhas, porque somos humanos e somos falhos.
O Red Pill começou a trazer conjecturas escusas em relação a opções que tais homens devem ou não aceitar na vida deles, um dito “comportamento bíblico” sobre o que deve ou não se fazer em relação a eles mesmos. E caso você não o faça, você vai ser taxado como Blue Pill, Pink Pill ou até mesmo Black Pill. Os outros dois, são variações criadas por esses ditos líderes da bolha Red Pill, onde o Pink Pill, ou o Esquerdomacho, ou Feministo, seria um homem atrelado às pautas feministas ignorando a masculinidade dita como a correta entre eles. Já o Black Pill seriam os sabotadores da essência, no caso, aqueles que fazem algo discordante da sociedade Red. No caso, homens que saem transando com todas as mulheres que vem pela frente ou que abandonam mulheres grávidas ou que simplesmente traem sem nenhum motivo aparente, mesmo eles dizendo que homens que traem não seriam Red Pill, existe uma fala sobre o homem que precisa da mulher para satisfazer suas necessidades, o que fica uma dúvida sobre tais comportamentos sobre cada influencer Red.
De fato, os influenciadores ainda não construíram uma só fala sobre diversos temas, e isso acaba transformando esse movimento em algo complexo e tóxico. Para a psicologia, movimento dito como massas, sempre existirá. Segundo Jung, a histeria coletiva, logo, um movimento traumático coletivo, pode permear uma doença social, mesmo que pessoas não estejam completamente na bolha. É uma doença verdadeira para eles, que dói, machuca e que precisa de ferramentas para não gatilhar novos processos. Grupos como AA ou de pessoas com problemas psicossociais, ou de minorias passam por esse mesmo dilema, e o Red Pill não é diferente.
Muitos acreditam que o RedPill é uma solução tanto para homens e mulheres traumatizados, abandonados e fragilizados com um mundo distinto dos deles. Vendendo a “verdade”, uma verdade subjetiva para cada pessoa. Algumas pessoas doentes com questões subjetivas acabam sendo acolhidas por um grupo mascarado cheio de líderes problemáticos e questionáveis.
E mesmo não trazendo o empresário Thiago Schutz para o tema, mas assim o fazendo, ele traz consigo o estandarte de um movimento crônico, que precisa não só ser criticado, mas também ser ouvido e possivelmente questionado para que percebam o grau psicossocial que tais líderes podem estar entrando sem perceber. Transformando pessoas, positivamente falando, mas também transformando pessoas em terríveis construtoras de paradigmas sociais que, infelizmente, nem a psicologia poderá quebrar, pelo menos não nessa geração.
A psicologia precisa estar atenta sim, a esse movimento, não quebrando ou marginalizando-os, mas compreendendo que existe uma ferida aberta, que nem tudo que eles fazem é negativo, mas que existe sim, um problema crônico, que se não visto, tratado e remediado, pode ser tarde demais para essa bolha, o de não perceber o “não estar numa Matrix dela mesma”.